2 de dezembro de 2012

Figo verde

"Tem que ter tempo pra mijar, pra comer, pra passear...". Essas foram algumas das palavras da minha avó hoje ao telefone conversando comigo. Ela me perguntou como eu estava e como estava tudo. Acho que não gostou da resposta. Minha mãe e ela estavam debaixo de uma figueira catando figo pra fazer doce. Eu consigo até ver aquela senhorinha de cabeça branquinha tirando os figos dos galhos.
Já não lembro direito qual foi a última vez que a vi (com os olhos e não como uma imagem mental construída de lembranças).
Ela, como muitas outras avós, já viu tanta coisa acontecer, viu o tempo ser cruel com tanta gente à sua volta. Viu a fragilidade da vida. Viu e entendeu que a gente precisa recriar um outro tempo dentro do tempo.
Sabe, onde ela mora o tempo passa mais devagar. Dá até pra perceber a nossa própria respiração, dá até pra lembrar que o céu existe. Dá pra ver fruta madurando no pé.
Mas figo pra fazer doce, é figo verde. Não pode deixar passar muito tempo, senão ele madura e já era.
Eu estou aqui, escrevendo esse texto e pensando em um milhão de coisas. Pensando o quanto eu tenho madurado nesses últimos anos e lamentando por não poder mais fazer da minha vida tão doce quanto doce de figo.
Eu volto a me perguntar o que realmente importa para ser um bom fruto. Importa madurar com o trabalho excessivo seguindo as regras da busca insaciável por ser um profissional perfeito, com o dinheiro e a dinâmica diabólica do balanço de ganhos e gastos, aceitar o pesticida de regras estabelecidas que matam o que de ruim pode te afetar, mas também infecta tudo o que você tem de bom? Ou importa mais ser colhido na hora certa, pelas mãos certas, no seio de quem te ama e saber aceitar a sua natureza verde, porém promissora de um futuro doce?

Eu prefiro ser verde e imperfeito.
Hoje é dia 2 de dezembro de 2012 e estou me comprometendo a seguir meu coração.

Um comentário:

Thais disse...

Lindoooo!!! Quero fazer isso também!!!

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