17 de fevereiro de 2012

iGod 300 – a new invention

Mais de 300 e-mails na caixa de entrada. Essa vida corrida tem dessas coisas!
Os e-mails se acumularam desde o novembro passado. Tanta informação! Tantas oportunidades escancaradas em cada linha de zeros e uns decodificados em representações gráficas do alfabeto, algarismos, sinais...
Programei fazer uma limpeza: olhar tudo o que presta e jogar fora tudo o que não presta.
Comecei. Tudo bem até o décimo, décimo primeiro e-mail. Uma bomba explodiu na minha cabeça. Cogumelo atômico de questionamento, onda de radiação espalhando-se através dos filamentos neurotransmissores do cérebro.
Isso é vida?
Passar horas em frente ao computador lendo correspondências de um passado recente, acessar vídeos, comentar a última imagem cômica do 9GAG... assistir televisão... trabalhar sem um propósito maior. Isso tudo é vida?
Então caí naquela pergunta recorrente: por que estamos vivos? Pra quê viver?
E todo tipo de lugar comum começou a me assombrar “isso é pergunta sem resposta”, “a única certeza da vida é a morte”, “a vida é uma benção e deve ser aproveitada”. Contudo, nenhuma dessas frases pôde me satisfazer.
Para algumas pessoas, parece muito óbvio e pouco estimulante perguntar-se sobre a vida, mas essa indagação chegou até mim num aspecto prático.
Passamos muito tempo da nossa vida a mercê das COISAS. A consolidação histórica do capitalismo ocidental, a política orientada para resultados rápidos, a cultura do vencedor e do perdedor, tudo isso e mais um monte de elementos contribuíram para nos tornar a humanidade materialista. Talvez, a maldição de criar COISAS e sermos dominados por elas incida sobre nós desde aquela roda de pedra. Ainda assim, alguns indivíduos conseguiram olhar para dentro e viver voltado para o interior, não só de si, mas de todos, de modo que fosse possível pensar e até buscar um bem comum (mesmo quando não encontrado, pelo menos fora buscado). Essa iniciativa dissonante de alguns indivíduos é algo que podemos chamar, na falta de outro termo, de uma espiritualidade; facilmente encontrada em alguns antigos sábios orientais, por sinal.
Porém, diariamente e no mundo em que vivemos, é bem difícil encontrar essa espiritualidade. Estamos presos às COISAS. Não temos autonomia para nos locomover, comer, ver ou pensar. Estamos cercados de COISAS que cerceiam ou orientam nossos estímulos e ações. Pense o mais amplo possível: estou falando de tudo o que nós entendemos por vida (na concepção de cotidiano, mesmo).
Graças ao equipamento posicionado à frente de mim – um microcomputador – minha humilde reflexão voltou-se para as COISAS da tecnologia, principalmente da tecnologia da informação.
Com equipamentos cada vez mais “sofisticados” surgindo no mercado o homem pôde ampliar suas possibilidades, sair da esfera insignificante do que é humano e alcançar algo maior. A cultura da convergência e o desenvolvimento de tecnologias voltadas para a portabilidade e autonomia de produção e disseminação (“ingestão”, também) de conteúdo contribuiu para criar um ser humano cada vez mais desprendido de alguns elementos como espaço definido, tempo e imagem representativa. É possível estar em qualquer lugar através da rede, ter acesso a qualquer informação, não estar subordinado a um tempo fixo de uso dessas ferramentas (acesso a qualquer momento) e ser quem quiser (através das informações que disponibiliza/acessa ou dos avatares que cria).
O homem é um quase Deus: onipresente, onisciente e sem forma definida. Ou, pelo menos, pensa (tem a sensação) que é. É aí que a bomba atômica de questionamento age novamente.
E todo esse anseio por desprendimento do homem e toda essa fluidez desesperada da vida que escorre pelo ralo do box, todo esse “tornar-se etéreo”... tudo isso não poderia ser apenas angústia?
Angústia de ter perdido aquela espiritualidade possível em outros tempos, aquela ligação direta (ou pelo menos mais próxima) com algo maior do que o alcance dos seus braços. Infelizmente, não posso afirmar.
O que entristece é perceber que esse atual desprendimento do homem é mais falso que nota de 3 reais. Ou melhor, é um desprendimento direcionado, é desprender-se de limitações físicas enquanto prende-se a aparelhos. É uma simbiose entre homem e COISAS. O homem, então, não é um Deus, é um robô. E, como todo robô, está sendo controlado.
E a inteligência artificial?
Por favor, isso não existe. Toda inteligência, realmente inteligente, é natural.

Obs.: Adoro tecnologia, quando bem aplicada e que demonstre caráter de utilidade realmente relevante. Não tenho religião, não frequento nem igreja, mas acredito em Deus como força e energia própria da natureza e do bem.

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